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Desembargador maranhense beneficiou Master antes de mulher fechar contrato milionário com banco
Newton Ramos deu dois votos em processo de interesse do Master meses antes de familiares firmarem contrato de até R$ 427 milhões com o banco
Por CIDADE FM 91,1 Mhz - GRAJAÚ MA
Publicado em 23/09/2026 09:30
NOTÍCIA

O desembargador maranhense Newton Pereira Ramos Neto, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), tornou-se alvo de uma reclamação disciplinar apresentada ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) nesta terça-feira (22). O pedido solicita a apuração de sua atuação em julgamentos que beneficiaram uma usina cujos interesses estavam alinhados aos do Banco Master, de Daniel Vorcaro.

O questionamento envolve dois votos proferidos por Newton em 2024 no processo da Usina Cansanção de Sinimbu, de Jequiá da Praia, em Alagoas. Em recuperação judicial, a empresa discutia o cálculo de uma indenização cobrada da União por supostos prejuízos provocados pela política de preços do setor sucroalcooleiro.

O Banco Master atuava no processo ao lado da usina após adquirir direitos creditórios relacionados a empresas do setor. Segundo a Polícia Federal, a compra de créditos de usinas em recuperação judicial integra as investigações sobre operações que teriam sido utilizadas para inflar artificialmente a liquidez da instituição financeira.

O primeiro julgamento com participação do desembargador ocorreu entre 22 e 26 de janeiro de 2024, em sessão virtual da 11ª Turma do TRF-1. Por unanimidade, o colegiado acolheu recurso da usina e restringiu os parâmetros da perícia utilizada para definir o valor da indenização.

A União pretendia uma análise mais ampla, com a inclusão de novos documentos. A empresa defendia que o cálculo fosse limitado aos critérios considerados no processo original. O tribunal adotou a posição apresentada pela usina.

Newton participou novamente de um julgamento relacionado ao caso entre 3 e 7 de junho de 2024. Na ocasião, a 11ª Turma rejeitou, também por unanimidade, recursos apresentados pela União e manteve o entendimento anterior sobre os critérios da perícia.

Ao Estadão, Newton Ramos afirmou que o primeiro julgamento ocorreu em uma sessão virtual com aproximadamente 300 processos analisados em bloco. As duas decisões foram colegiadas e unânimes.

A atuação do desembargador passou a ser questionada também em razão de um contrato firmado posteriormente por integrantes de sua família com o Banco Master.

Cerca de seis meses depois do segundo voto, a advogada Camilla Rose Ewerton Ferro Ramos, mulher de Newton, e Gabriel Ribeiro Gonçalves Ramos, filho do magistrado, aparecem em procurações relacionadas ao contrato com a instituição de Daniel Vorcaro.

O acordo previa honorários de até R$ 427 milhões para o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos caso obtivesse êxito em ações judiciais que, juntas, envolviam aproximadamente R$ 8,5 bilhões. Os processos também estavam relacionados a indenizações cobradas da União por empresas do setor de açúcar e álcool.

A proximidade entre os temas tratados nos julgamentos e a posterior atuação profissional dos familiares está entre os pontos levados ao CNJ pelo advogado Alex Ferreira Borralho.

Na reclamação disciplinar, Borralho pede que o Conselho investigue se houve algum comprometimento funcional na atuação de Newton em benefício de Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de interesses relacionados à atuação profissional de sua mulher.

A existência do pedido não significa que o CNJ tenha identificado irregularidade na conduta do desembargador. O Conselho ainda deverá analisar a reclamação e decidir sobre eventual abertura de procedimento disciplinar.

A discussão sobre os créditos das usinas antecede os julgamentos dos quais Newton participou. Em junho de 2022, a Presidência do TRF-1 determinou a suspensão de pagamentos de precatórios depois de detectar suspeitas de irregularidades em decisões que permitiam a liberação dos recursos antes do encerramento definitivo das discussões sobre os valores das indenizações.

Posteriormente, o Banco Master passou a comprar participações nesses créditos e a ingressar como interessado em processos que tramitavam no TRF-1. Os papéis chegaram à instituição por meio de uma cadeia de fundos de investimento ligados à Reag e ao próprio Master.

Newton Ramos, entretanto, não atuou diretamente nos processos específicos relacionados à expedição antecipada desses precatórios. Os dois votos agora mencionados na reclamação ao CNJ ocorreram no processo da Usina Cansanção de Sinimbu e trataram dos critérios utilizados para calcular a indenização.

O desembargador maranhense também aparece em outras informações reveladas nas investigações envolvendo Daniel Vorcaro. Mensagens extraídas do celular do banqueiro e divulgadas pela imprensa mencionam Newton e Camilla em contatos relacionados ao grupo chamado de “Turma do KN”, expressão atribuída ao círculo ligado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Nunes Marques.

Newton e Nunes Marques mantêm relação profissional anterior aos fatos atualmente investigados. O desembargador maranhense atuou como juiz auxiliar do ministro quando Nunes Marques ainda integrava o TRF-1.

A reclamação apresentada ao CNJ abre uma nova frente de questionamentos sobre a atuação de Newton Ramos no contexto das revelações envolvendo o Banco Master. Qualquer eventual responsabilização disciplinar, porém, dependerá da análise do Conselho e das conclusões de procedimento que venha a ser instaurado.

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